Domingo de Pentecostes
“Enviai o
vosso Espírito, Senhor,
e da terra toda a face renovai!”
Leituras: Atos 2, 1-11;
Salmo
103, 1ab.24ac.29bc-30.31.34 (R/30);
Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios
12, 3b-7.12-13;
João 20, 19-23.
COR
LITÚRGICA: VERMELHA
Aleluia, irmãos e irmãs! Cristo Ressuscitou! Com
a festa de hoje, estamos chegando à conclusão do Tempo Pascal, tempo celebrado
com alegria e exultação, um só dia de festa que durou cinqüenta dias, "um
grande domingo", tempo marcado pelo canto e pelo sentimento do "Aleluia".
(cf. Normas Universais do Ano Litúrgico, 22). Faremos, ainda nesta celebração,
memória da grande Vigília Pascal, “mãe de todas as vigílias” (Sto. Agostinho). O
fogo que acendeu o círio pascal fez memória da “Bênção do fogo novo”. A
solenidade de Pentecostes destaca a essencialidade da presença do Espírito
Santo na vida do evangelizador.
1. Situando-nos brevemente
No dia de hoje vamos celebrar a manifestação daquela Força que
tirou Jesus da morte e lhe trouxe à vida.
Com este domingo se concluem os cinquenta dias da Páscoa,
dedicados inteiramente a celebrar a alegria da Ressurreição, a novidade da vida
dos batizados e o começo da Igreja, animada pelo Espírito Santo.
A oração da “coleta” da Vigília de Pentecostes sintetiza bem a
importância do dia de hoje: “Deus eterno e todo-poderoso, quisestes que o
mistério pascal se completasse durante cinqüenta dias, até a vinda do Espírito
Santo. Fazei que todas as nações dispersas pela terra, na diversidade de suas
línguas, se unam no louvor do vosso nome”. E completa o Prefácio da Festa de
hoje: “Para levar à plenitude os mistérios pascais, derramastes, hoje, o
Espírito Santo prometido, em favor de vossos filhos e filhas” (Prefácio de
Pentecostes. Missal Roman, p. 319).
2. Recordando a Palavra
O texto dos Atos dos Apóstolos é construído por Lucas com uma
finalidade teologia bastante especifica: estabelecendo um paralelo com o
Pentecostes do povo de Israel, mostrar que a ação de Deus continua viva agora
nos cristãos. A festa judaica de Pentecostes, celebrava, cinqüenta dias depois
da páscoa, a recepção da Torá no Monte Sinai (Cf. Ex 19,16-20 e Dt 5, 4-5).
Percebemos também um contraponto ao relato de Babel (Cf. Gn 11,
1-11): lá, a multiplicidade de línguas gerou confusão: aqui, pela ação do
Espírito de Deus, gerou unidade. A Igreja nasce com uma vocação universal,
evidenciada pelos numerosos povos ali reunidos.
Elementos como o barulho forte, o vento e as línguas de fogo são
teofânicos: expressam a presença de Deus. É essencial perceber que a comunidade
primitiva foi invadida, tomada pelo Espírito, e que toda a sua atividade
posterior se dá pelo influxo deste mesmo Espírito.
O Salmo 103 pede que o Espírito do Senhor seja enviado também a
nós, para que a face da terra seja renovada. Canta a beleza da criação que, sem
respeito da vida, dado por Deus, volta ao nada de onde saiu.
A unidade de que fala a primeira leitura não anula a diversidade
presente na Igreja. Isso é garantido pelo texto de Paulo aos Coríntios. É o
Espírito Santo que nos permite crer. O essencial é a profissão de fé em Cristo
Ressuscitado: Ele é o Senhor.
A comunidade de Corinto passava por algumas dificuldades por
causa do sincretismo religioso. Diante disso, como discernir o que é,
verdadeiramente, obra de Deus do que é puramente humano? Paulo coloca três
critérios importantes: 1. Todos os carismas devem conduzir à mesma profissão de
fé no senhorio de Cristo; 2. Todos os carismas devem ajudar a concretizar o
plano salvífico de Deus; 3. Os carismas servem ao bem comum e à unidade do
Corpo de Cristo, nunca criam divisão.
As diferenças étnicas (judeus e gregos) e sociais (escravos ou
livres) não podem perdurar na comunidade cristã. A adversidade de carismas, assim,
não destrói, mas favorecem a unidade na fé.
O Evangelho se dá no lugar da reunião da comunidade, que, ao que
tudo indica, já tinha estabelecido o costume de se reunir no primeiro dia da
semana. Chama atenção que estavam com medo, o que revela a situação da
comunidade de João em relação à Sinagoga.
Jesus entra, mesmo com as portas fechadas, põe-se no meio deles,
os saúda dando a paz. Há controvérsias exegéticas sobre a tradução das palavras
de Jesus: “’Paz a vós!’ Por essas palavras, que são as primeiras que o Vivente
dirige aos seus discípulos reunidos, Jesus não formula uma saudação ordinária,
o shalom costumeiro dos judeus.
Também não é um desejo, como erroneamente se traduz: ‘A paz esteja convosco’.
Trata-se do dom efetivo da paz, em conformidade com o que Jesus disse no seu
Discurso de despedida: ‘Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la
dou como o mundo’ (14, 27)” (LÉON DUFOUR,
Xavier. Leitura do Evangelho Segundo João – IV. São Paulo: Loyola, p. 166).
Depois se apresenta, mostrando a identidade entre o Crucificado
e o Ressuscitado. O resultado dessa visita é a alegria que brota no coração dos
discípulos, que vêem o Senhor.
Há uma nova saudação de paz, sinal do início de um novo tempo.
Jesus, o Enviado por excelência, envia agora os seus discípulos. “A missão
provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo. O envio dos discípulos implica
tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo
conhecer seu Nome e manifestando seu amor (Cf. 17, 6.26)” (Idem p. 169).
Temos, agora, um gesto: soprou sobre eles. Esse sopro é indicado
com o mesmo verbo que consta em Gênesis 2,7. Faz referência clara ao ato
criador e, agora, inaugura uma nova criação. “Trata-se agora da nova criação:
Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem (cf. 3, 3-8),
capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que ‘tem a vida em si
mesmo’ dispõe dela a favor dos seus (cf. 5, 26.21): seu sopro é o da vida
eterna. Mostrando a chaga de seu lado, não evocou Jesus o rio de água viva que
daí saiu, símbolo do Espírito dado aos que crêem (19,34; cf 7,39)” Ibidem, p.169).
Prestemos atenção ao fato de que João situa esse relato no dia
da Páscoa. Assim não é Pentecostes, porque não está a cinqüenta dias da Páscoa,
como em Lucas. Contudo, é, sim, o dia do envio do Espírito Santo, mostrando o
laço imediato do dom do Espírito com o Cristo Ressuscitado.
Sobre o perdão dos pecados, confiado à comunidade, vemos que
“perdoar/manter” significa aqui a totalidade do poder misericordioso
transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. (...) De acordo com os profetas,
a efusão escatológica do Espírito purificará Israel de suas manchas e de seus
ídolos.
Na pregação cristã primitiva, remissão dos pecados e dom do
Espírito vão juntos. O efeito primeiro da criação nova, que Jesus significou
por seu sopro, é o renascimento do ser (cf. 3,3) e, portanto, o perdão.
Não se deve esquecer de valorizar a Sequência de Pentecostes,
hino ao Espírito Santo, louvando-o e suplicando sua vinda.
3. Atualizando a Palavra
A melhor atualização da Palavra de Deus é voltar nosso olhar
para a Igreja, para a comunidade cristã. Passaram-se dois milênios. Sabemos de
inúmeros erros, pecados, enganos e infidelidades que os cristãos cometeram
nesse período.
Contudo, a força da Ressurreição não se perdeu, está viva e
mantém viva a comunidade dos que crêem, daqueles que tem no centro de sua
existência o Senhor Ressuscitado. Em seus corações arde ainda hoje o fogo
impetuoso do Espírito Santo.
O Espírito Santo á a pessoa da Trindade mais próxima de nós,
porque habita em nosso interior. É Ele que nos move, nos guia, nos sustenta.
Enxergamos hoje nossas comunidades com uma pluralidade de dons, de carismas, de
iniciativas. É, sem dúvida, fruto do Espírito. Há que cuidar, contudo, para nos
esquecer os critérios que Paulo nos apresenta para que esses carismas ajudem a
construir a unidade que Deus quer.
Pentecostes faz com que nossas comunidades se voltem para fora,
enxerguem a enorme missão que está à sua frente. Se existem divisões internas,
brigas por espaço e incompreensões entre grupos, não será por falta de
iniciativa missionária?
“A presença do Espírito Santo garante que a comunidade cristã
não seja reduzida a uma realidade sociológica ou psicológica, como se fosse
apenas um grupo que se reúne para atender às suas necessidades ou para fazer o
bem. Pelo Espírito Santo a comunidade recebe o dom da unidade que permite a
comunhão das pessoas com Cristo e entre si. Não há comunidade cristã que não
seja missionária. Se ela esquece a missão, deixa de ser cristã. Por isso, a
comunidade vive a comunhão na diversidade, aberta a acolher quem se aproxima e
possibilitar que muitos participem” (CNBB.
Comunidades das Comunidades: uma nova paróquia A conversão pastoral da
paróquia. Brasília: Edições CNBB Ano: 2014, n.152 e 157).
Assim, Pentecostes não fecha, mas abre o Tempo Pascal para a
história que vivemos. Ele nos permitiu essa experiência profunda de encontro
com o Ressuscitado, que agora nos dá seu Espírito e nos envia. “O Cristão tem a
obrigação de manter viva essa tripla dimensão das ‘aparições’. A dimensão
vertical da experiência arranca-me da falta de elevação de uma existência
terrena. O reconhecimento do Jesus do passado me faz tropeçar na questão inquietante”.
“‘Para vós, que sou eu?’ E eu me vejo enviado aos homens para
lhes comunicar minha alegria e convidá-los a se amarem uns aos outros. O
presente só adquire densidade quando se volta para o passado e se estende para
o futuro. Então, meu presente torna-se presença a Deus e ao mundo” (LÉON-DUFOUR, Op. Cit. P. 190).
Disse o Papa Francisco na solenidade de Pentecostes do ano de
2014: “O dia de Pentecostes, quando os discípulos ‘ficaram todos cheios do
Espírito Santo’, foi o batismo da Igreja, que nasce ‘em saída’, ‘em partida’
para anunciar a todos a Boa Notícia. A Mãe Igreja, que parte para servir.
Recordemos a outra Mãe, a nossa Mãe que partiu com prontidão, para servir. A
Mãe Igreja e a Mãe Maria: todas as duas virgens, todas as duas mães, todas as
duas mulheres. Jesus foi preciso com os apóstolos: não deveriam se afastar de
Jerusalém antes que tivessem recebido do alto a força do Espírito Santo (Cf. At
1,4.8). Sem Ele não há missão, não há evangelização. Por isso com toda a
Igreja, a nossa Mãe Igreja católica invoquemos: Vem, Santo Espírito!”
4. Ligando a Palavra com ação
litúrgica
Toda a ação eucarística se dá por obra do Espírito Santo. Como
em nenhuma outra ação da Igreja, percebemo-lo presente e atuante.
“A assembleia é o lugar onde o Espírito Santo ‘dá fruto’, é a
epifania de todos os dons que o Espírito faz à Igreja. Nela se reúnem todos os
componentes da Igreja: ninguém pode ser excluído, porque o conjunto dos dons do
Espírito existe, só e unicamente, no conjunto dos membros da comunidade”.
“Portanto, fazer com que a práxis litúrgica se torne práxis eclesial
significa, antes de tudo, notar que, assim como na assembleia litúrgica,
ninguém faz tudo para todos, mas cada um age segundo a sua tarefa, ninguém é
expectador, mas todos professam sua fé de modo que se tornem verdadeiros
concelebrantes da mesma fé; do mesmo modo, na vida concreta da comunidade
cristã, ninguém deve fazer tudo para todos, mas cada um é chamado a colaborar
na edificação da Igreja, segundo o dom recebido e segundo o ministério que lhe
foi confiado pela própria Igreja”.
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